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O término

“O Trio de Ouro não acabou… Dalva e Herivelto não se desquitaram”, anunciava a Revista do Rádio em outubro de 1948. No mesmo ano em que o veículo de comunicação chegaria ao mercado pela primeira vez, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins veriam crescer boatos de separação – à época, limitada ao processo de desquite –  e fim do grupo musical. Os desentendimentos já existiam, mas o casal parecia amenizar a situação em uma reportagem de duas páginas. 

Na verdade, Herivelto mantinha, há cerca de um ano, uma relação extraconjugal quase explícita. Depois de conhecer a aeromoça Lurdes Torelly em uma de suas viagens, o compositor traria à esposa, Dalva, uma preocupação mais concreta em relação ao casamento. “Cada vez mais, ele foi ficando à vontade com essa situação, voltando mais tarde de suas saídas – ou não voltando – e apresentando com naturalidade Lurdes aos amigos”, escreve Pery Ribeiro no livro Minhas duas estrelas.  

Em pouco tempo, a verdade chegaria até Dalva. Pery recorda que a cantora encontrou uma foto no paletó do marido, exibindo-o junto de uma mulher e uma criança de colo. A Rainha da Voz tinha, então, certeza da nova paixão de Herivelto. Entre o casal, a possibilidade de separação não era ignorada, mas algo manteria o casamento oficializado até 1949: a longa e frutífera carreira do Trio de Ouro.

“Nesse clima, imagino que foi surgindo devagarzinho a ideia de manterem o casamento por causa dos compromissos profissionais e dos filhos. E assim, aos poucos, meu pai passou a forçar cada vez mais uma situação que só beneficiava a ele. Em seu egoísmo, procurava conciliar o sentimento que nutria por minha mãe, o trabalho com o Trio de Ouro e a paixão por Lurdes.”
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas

Uma excursão à Venezuela marcaria de vez a separação de Dalva e Herivelto. Convidado pela companhia da atriz Dercy Gonçalves, o Trio de Ouro partiu, junto de outros artistas, rumo ao país sul-americano, em 1949. Ao se depararem com a rejeição do público em algumas apresentações – principalmente nas performances irreverentes de Dercy, segundo informações do filho de Dalva –, os artistas da companhia decidiram seguir caminhos diferentes. Uns permaneceram no país para tentar o sucesso; outros retornaram ao Brasil o mais rápido possível.

Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba) 

À edição nº 29 da Revista do Rádio, Dalva já revelava o abandono por parte do ex-marido. “Estávamos na Venezuela, onde vínhamos alcançando grande sucesso, quando Herivelto arranjou outro "amor" e veio para o Rio, deixando-nos lá; então, resolvi continuar sozinha, lá mesmo, na Venezuela, e consegui grande sucesso”, declarou a Rainha da Voz, provavelmente, referindo-se ao sucesso do Trio de Ouro no começo da excursão, além do envolvimento de Herivelto com Lurdes, no Brasil.

A partir de 1950, o término de Dalva e Herivelto renderia os mais diferentes conteúdos aos jornais e revistas da época. Herivelto, por exemplo, assegurava ser o autor do pedido de “desquite”. “Dalva saiu do Trio por incompatibilidade de gênios comigo. O desquite fui eu que pedi e estou somente à espera que ela o assine amigavelmente, coisa que ela ainda não quis fazer”, detalhou o compositor à Revista do Rádio.

“– E quanto às atividades artísticas de Dalva de Oliveira?
– Nada tenho a opor. Como marido ainda poderia impedi-Ia de atuar. Não desejo porém ser entrave às suas vontades e desejo até que seja feliz.”

Herivelto Martins em entrevista à Revista do Rádio, edição nº 38

Rodrigo Faour é jornalista, pesquisador musical e especialista em história da música popular brasileira.

Dalva demora, mas rebate a versão do ex-marido. Em 1951, a cantora afirma que o “desquite” ainda não foi assinado “apenas porque Herivelto não quer pagar a pensão a que os filhos têm direito e o juiz espera que ele se resolva amigavelmente a conceder”. Na entrevista, a cantora ainda lembra que pagar o colégio de Ubiratan e Pery não seria o suficiente para a criação e conforto dos meninos.

“– E o desquite ainda não foi assinado, interrogamos?
– Apenas porque Herivelto não quer pagar a pensão a que os filhos têm direito e o juiz espera que ele se resolva amigavelmente a conceder.
– Mas ele declarou que paga o colégio.

– Sim. Apenas isso. Mas as crianças já me imploraram chorando que as tirasse de lá.
– Por quê?
– Por causa das declarações que ele vem fazendo pela imprensa. Os meninos são procurados a todo instante. Os colegas e professores estão a par de tudo e meus filhos se sentem envergonhados! Tudo porque o pai deles procura enlamear-lhes os nomes e vai para as colunas de um jornal detalhar assuntos que mesmo se fossem verdadeiros deveriam ficar entre as quatro paredes de nossos mais íntimos sentimentos de paternidade.”

Dalva de Oliveira em entrevista à Revista do Rádio, edição nº 69

Em maio de 1950, o Trio de Ouro já se apresentava em nova formação. Naquele mesmo ano, a Rainha da Voz daria início a uma carreira solo estrondosa. Pery Ribeiro lembra que, após realizar um show com Vicente Paiva, Dalva chorou ao ver tanto dinheiro reunido. “É todo meu, tem certeza?”, teria perguntado a artista, acostumada a ver os cachês serem controlados pelo ex-marido. Se as carreiras de Dalva e Herivelto pareciam se adaptar à nova realidade, o “desquite” do casal ainda permaneceria na memória popular – e na mídia – por alguns anos. 

O duelo

“Não falem dessa mulher perto de mim/Não falem pra não lembrar minha dor/Já fui moço, já gozei a mocidade/Se me lembro dela, me dá saudade/Por ela, vivo aos trancos e barrancos/Respeite ao menos meus cabelos brancos”. Lançada em 1949, pelo grupo musical Quatro Ases e Um Coringa, a música Cabelos Brancos (Herivelto Martins e Marino Pinto) parecia estar de acordo com o que Dalva e Herivelto viviam naquele momento. Apesar de ter sido composta anos antes da separação, como lembra Pery Ribeiro em suas memórias, Cabelos Brancos seria a premonição de um episódio que ficou marcado na vida do casal como duelo – ou polêmica – musical. 

Para o público, Dalva e Herivelto estavam resolvendo pendências do casamento através de lançamentos musicais. O primeiro grande sucesso de Dalva, agora em carreira solo, seria mais uma fagulha para essa interpretação popular. Em 1950, a Rainha da Voz cantaria os instigantes versos de Tudo Acabado (J. Piedade e Oswaldo Martins): “Tudo acabado entre nós/Já não há mais nada/Tudo acabado entre nós/Hoje de madrugada/Você chorou e eu chorei/Você partiu e eu fiquei/Se você volta outra vez, eu não sei”.

“Diz Dalva de Oliveira que foi no Teatro, certa ocasião, que o compositor J. Piedade pediu que cantasse um samba seu, aliás, já interpretado por Linda Batista, há mais de um ano, portanto, muito antes da separação do casal! Cantou, gostou e gravou, sem ter a menor ideia de que sua história tivesse qualquer relação com o seu caso. Nada mais. E se a má fé tomou isso como alusão à separação do casal, não lhe cabe, absolutamente, culpa.”
René Nunes na Revista do Rádio, edição nº 51

Em pouco tempo, a cantora propagaria novas desilusões amorosas na letra de um novo sucesso estrondoso. “Que será/Da minha vida sem o teu amor/Da minha boca sem os beijos teus/Da minha alma sem o teu calor?”, questionava o bolero de Marino Pinto e Mário Rossi, intitulado Que Será. “Meu pai não soube enfrentar esse sucesso que minha mãe alcançava sem ele e apelou. Foi aí então que estourou a grande guerra musical”, explica Pery.

Juntando-se ao jornalista e compositor David Nasser, Herivelto criou a música Caminho Certo, lançada em 1950 pela nova formação do Trio de Ouro. “Eu deixei o meu caminho certo/E a culpada foi ela/Transformava o lar na minha ausência/Em qualquer coisa abaixo da decência”, acusavam os versos da canção. A letra ainda mencionava a traição de amigos: “Sei agora que os amigos que outrora/Sentavam à minha mesa/Serviam sem eu saber/O amor por sobremesa”.

“Herivelto Martins afirma categoricamente, por seu lado, que “Caminho Certo” nada tem a ver com o “Tudo Acabado”. E, um samba como outro qualquer, fê-lo porque teve a inspiração necessária para tal, e, em absoluto, não visa ninguém, porque, para ele, as coisas privadas ficam melhor escondidas do que no conhecimento do grande público. Este samba – diz Herivelto – não tem propriamente história. Acontece que é uma música, contando um caso, como tantos que existem na vida; uma narrativa interessante de se explorar, que o fiz como compositor, sem pensar em “a, b ou c”...”
René Nunes na Revista do Rádio, edição nº 51

Embora tenha negado qualquer relação entre Caminho Certo e Tudo Acabado, Herivelto Martins provocou alguns dos maiores compositores da época – sendo, muitos deles, parceiros do ex-marido de Dalva. Pery Ribeiro garante que Ataulfo Alves, Marino Pinto, Oswaldo Martins, Paulo Soledade, dentre outros grandes nomes da música popular brasileira, tomaram as dores da Rainha da Voz. Intencionalmente ou não, as composições oferecidas a Dalva pareciam, cada vez mais, respostas às investidas de Herivelto.

Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba) 

Ainda em 1950, Errei, Sim incomodaria bastante o líder do Trio de Ouro. Mesmo integrando, há alguns anos, o repertório de Elizeth Cardoso, a música de Ataulfo Alves ganharia outras dimensões na gravação de Dalva. “Lembro-te agora que não é só casa e comida/Que prende por toda vida/O coração de uma mulher/As joias que me davas/Não tinham nenhum valor/Se o mais caro me negavas/Que era todo o seu amor”, cantava a intérprete.

“Foi tanto o sucesso de “Errei, sim” que meu pai passou a odiar Ataulfo e por pouco não chegaram às vias de fato”, lembra Pery. Abalado por ver os amigos do lado de Dalva, Herivelto chegou a compor, com Benedito Lacerda, uma mensagem a um deles: Marino Pinto. “Falso amigo, me trocaste por dinheiro/Eu, que te considerava meu amigo verdadeiro/Aproveita/Gasta bem o que ganhaste/Eu não quero ter notícia/Que como Judas te portaste”, lamentavam os versos de Falso Amigo, música lançada por João Dias em 1954. 

“Sei que foi Marino quem lhe causou mais mágoa, pois eles eram realmente muito unidos. E, por isso mesmo, acho que acabou sendo perdoado, anos mais tarde, e ele e meu pai até voltaram a ser parceiros nos anos 60”. 
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas

No duelo musical, Errei, Sim ainda seria revidada. Recorrendo mais uma vez à parceria de David Nasser, Herivelto compôs Teu Exemplo, divulgada pelo Trio de Ouro em 1950. “Há muita gente/Que a glória arranca/Do próprio drama/E da tragédia da vida/Motivos para viver/E quando erra proclama/E quando peca sorri/Há muita estrela na lama/Mas eu me refiro a ti”, atacavam os versos da canção. Na gravação do Trio, os erros proclamados pareciam dialogar diretamente com a letra da música de Ataulfo.

Desta vez, a resposta de Dalva seria mais explícita. “Quiseste ofuscar minha fama/E até jogar-me na lama/Só porque eu vivo a brilhar/Sim, mostraste ser invejoso/Viraste até mentiroso/Só para caluniar”, firmavam Marino Pinto e Paulo Soledade nos versos de Calúnia, lançada por Dalva em 1951. Nesse caso, os elementos da letra, como o brilho e a lama, pareciam responder precisamente aos ataques de Herivelto e David.

Outras composições seriam incluídas no contexto da polêmica musical. Consulta o Teu Travesseiro (Herivelto Martins e Benedito Lacerda, 1950), Não Tem Mais Jeito (Herivelto Martins e Benedito Lacerda, 1950), Palhaço (Nelson Cavaquinho, Oswaldo Martins e Washington Fernandes, 1951), Fim de Comédia (Ataulfo Alves, 1952), A Grande Verdade (Luis Bittencourt e Marlene, 1951), Perdoar (Herivelto Martins e Raul Sampaio, 1952) e Poeira de Chão (Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, 1952) são os títulos mencionados por Pery Ribeiro. Rodrigo Faour, no primeiro volume de História da música popular brasileira, sem preconceitos, ainda menciona Mentira de Amor (Lourival Faissal e Gustavo de Carvalho, 1950).

Quer ouvir as músicas que fizeram parte do duelo musical? É só clicar aqui

Inconformado com a ascensão da carreira de Dalva, àquela altura também defendida pelo grande público no duelo musical, Herivelto apelou para uma nova forma de combate. “Com a ajuda do jornalista sensacionalista (e letrista) David Nasser, cunhou matérias mentirosas publicadas no Diário da Noite de modo a se “defender” de Dalva, dando sua versão muito particular ao caos conjugal dos dois”, escreve Rodrigo Faour. Era esse o elemento que faltava para as pessoas assumirem, de vez, as dores da cantora no cenário pós-separação.

“Junto com David Nasser, meu pai começa a publicar no início de 1951 uma série de artigos diários (foram 22 capítulos ditados por ele e escritos por David) durante cinco semanas. Ele não poupou palavras nem desrespeito por aquela que foi sua companheira, mãe de seus dois filhos, e lhe deu suporte profissional durante mais de catorze anos”.
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas

Renovando costumes

Separar-se de Herivelto e, depois, enfrentá-lo – com ou sem intenção – em uma polêmica musical faria de Dalva uma figura considerada à frente de seu tempo. Em uma época em que a submissão era regra para as mulheres, falar abertamente de um relacionamento problemático jogaria luz sobre questões aparentemente proibidas. “Dalva, inconscientemente, acabou contribuindo para a evolução dos costumes”, pontua o jornalista Rodrigo Faour.

Bernardo Martins destaca a importância das escolhas feitas pela avó. Para ele, quebrar o silêncio foi uma ação essencial à história de Dalva. “Minha avó não ficou calada. A partir do momento em que ela não ficou calada, ela abriu espaço para uma liberdade feminina”, afirma o diretor do documentário #100Dalva. De forma inconsciente, a Rainha da Voz questionava padrões da sociedade da época. 

Uma reportagem de Eduardo Henrique Rota Hilário

Bauru, 2023

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