Renasce uma estrela
Quando Dalva de Oliveira deixou o Trio de Ouro, seu lugar logo foi preenchido por Noemi Cavalcanti. Entre os fãs da Rainha da Voz, a decisão de substituir uma cantora como Dalva naturalmente repercutiu de forma negativa. Não demorou para que o descontentamento estampasse páginas da Revista do Rádio.
Edna Pereira Gomes foi uma das fãs insatisfeitas. “Declara a missivista que, apesar das qualidades de Noemi, ela e muitas outras amigas continuam fãs incondicionais de Dalva de Oliveira”, publicou o veículo de comunicação. Lenira Firpo, por sua vez, foi mais incisiva, apontando que o novo Trio estava “muito longe de ser o famoso Trio de Ouro de antigamente, quando os sucessos eram sempre garantidos pela voz da intérprete feminina”.
Ian Felipe Fontes, administrador do fã-clube Dalva de Oliveira FC, no Instagram, considera que a cantora já era um sucesso na época do Trio. “Ela era a alma do grupo”, defende. Para ele, sair do conjunto e enfrentar “uma briga” com o ex-marido, Herivelto Martins, fez com que Dalva conquistasse ainda mais o carinho do público. “Ela passou por uma barra enorme”, justifica.
Havia, no entanto, outra dimensão na saída da cantora. No livro Minhas duas estrelas, Pery Ribeiro lembra que o pai, Herivelto, não acreditava muito na possibilidade de Dalva ser bem-sucedida em carreira solo. Se, por um lado, o compositor já convivia com a nova mulher, Lurdes, por outro, “artisticamente a perda [de Dalva] era irremediável para ele”.
“Penso que ele torcia para que se tornasse verdade o que tantas vezes dissera à minha mãe, para amedrontá-la, quando brigavam:
“Você não é nada sem mim. Eu inventei você. Não se esqueça disso, Dalva!”.”
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas
De fato, quando Dalva de Oliveira procurou a gravadora Odeon para dar início à nova discografia, a resposta encontrada foi que somente o Trio de Ouro interessava naquele momento. Graças a uma aposta de Vicente Paiva, então diretor artístico da Odeon, Dalva conseguiu gravar o primeiro disco de 78 rotações da carreira solo. O lançamento trazia a faixa Tudo Acabado (J. Piedade e Oswaldo Martins) de um lado, e Olhos Verdes (Vicente Paiva) do outro.
Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba)
Somente em 1950, Tudo Acabado destacou-se 26 vezes na Sucessos da Semana, parada musical divulgada por Abelardo Barbosa – o Chacrinha – em sua coluna na Revista do Rádio. Da edição nº 40 à edição nº 51, a música ocupou, sozinha, o primeiro lugar dos grandes sucessos da época. As listas baseavam-se em enquetes realizadas junto a “fábricas gravadoras” e casas de discos, além dos pedidos musicais recebidos pelo Cassino da Chacrinha.
Bernardo Martins, neto de Dalva e Herivelto, lembra que deixar o Trio de Ouro para começar uma carreira solo foi uma escolha arriscada para a Rainha da Voz. Ao mesmo tempo, o diretor do documentário #100Dalva considera que essa foi uma das melhores decisões artísticas de sua avó. “Para mim, ali começa a grande Dalva de Oliveira”, admite.
Mas a glória de Dalva em 1950 não se resume à repercussão de Tudo Acabado. Além do lado A do disco apresentar Olhos Verdes, faixa que também ficou para a posteridade, os lançamentos de Que Será (Marino Pinto e Mário Rossi) e Errei, Sim (Ataulfo Alves) também obtiveram destaque ao longo do ano. Que Será atingiu o topo da Sucessos da Semana em sete edições da Revista do Rádio; Errei, Sim, em quatro. Ironicamente, Que Será e Tudo Acabado também entraram para a lista de discos preferidos por Herivelto Martins no mesmo ano.

Que Será e Tudo Acabado são alguns dos Discos Preferidos por Herivelto Martins, lista publicada na edição nº 61 da Revista do Rádio (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
É também de 1950 o 78 rpm com o clássico Ave Maria (Vicente Paiva e Jaime Redondo). Segundo Pery Ribeiro, no livro Minhas duas estrelas, Ave Maria era outra canção “que fazia a plateia vir abaixo com a interpretação de Dalva”. Iniciada a série de sucessos que se manteria estável durante boa parte da década de 1950, Dalva de Oliveira não demorou para ter sua relevância reconhecida. “Dalva é a maior atração de 1950”, escreveu Chacrinha na edição nº 64 da Revista do Rádio.
Grandes amigos
Com a carreira em ascensão, Dalva encontrava-se constantemente rodeada por uma multidão de admiradores. Pery Ribeiro assegura que o vínculo estabelecido entre Dalva e os fãs era “uma verdadeira relação de amor”. Para a Rainha da Voz, a música poderia ser considerada o sangue dos cantores, e os fãs deveriam ser encarados como “as veias por onde ele circula” – conta, também, o filho da estrela.
“Guardava cuidadosamente tudo o que ganhava deles, do objeto mais simples ao mais rico. Com o mesmo carinho. Construiu em Jacarepaguá um quarto só para os presentes dos fãs. Já na fase de declínio na carreira, quando estava deprimida e sumia de casa, sabíamos que estaria lá no quartinho dos fãs. Alisando as faixas, as coroas, os troféus, os pequenos mimos…”
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas
Bernardo Martins reitera que Dalva nutria um carinho especial por quem a acompanhava. Ele acredita que a Rainha da Voz não se importava muito com a opinião de críticos de música; os fãs, por sua vez, exerciam maior influência na trajetória da artista. “Minha avó cantava para os fãs. Se o público estivesse comprando seus discos, frequentando seus shows, batendo palmas para ela, satisfeito com aquilo, estava tudo bem”, explica.
A própria cantora, ao deixar a Rádio Nacional e estrear na Rádio Tupi, em 1952, confessou seu amor pelo público. “Mais uma vez, esse gesto do meu querido povo, dos meus fãs. E eu sempre digo: não tenho fãs e, sim, grandes amigos”, exclamava a artista em meio aos gritos eufóricos da plateia.
Nesse contexto, Ian Felipe classifica o fã como a base para qualquer ídolo. Das oportunidades de trabalho ao apoio emocional, passando pela geração de lucro, a presença – ou não – de admiradores determinaria os rumos de um artista.
Ian Felipe é estudante de História e administra o perfil Dalva de Oliveira FC no Instagram.
Na edição nº 91 da Revista do Rádio, é possível perceber como Dalva buscava, de fato, manter certa proximidade com os fãs. Ao entrar em contato com o veículo de comunicação, Maria Mendes compartilhava todo “seu entusiasmo” por receber um retrato autografado e uma “cartinha gentilíssima” escrita pela cantora.

Depoimento de Maria Mendes para o Opinião do Fan, espaço de interação entre a Revista do Rádio e seus leitores (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
“Minha avó sempre foi uma pessoa muito acessível, muito coerente com o tamanho do sucesso que tinha e muito respeitosa com as pessoas que a colocaram lá, com os fãs que a mantiveram lá”, ressalta Bernardo. Durante a entrevista, ele resgata um episódio também narrado pelo pai, Pery Ribeiro, no livro Minhas duas estrelas.
Segundo Pery, Dalva estava a caminho de um circo, onde faria uma apresentação. Quem procurou a estrela foi um rapaz, cuja mãe – de idade avançada e impossibilitada de se locomover – foi visitada pela Rainha da Voz. Vale ressaltar que Dalva estava atrasada para o show e contrariou a secretária, Virgínia Magalhães, ao visitar a mulher. A artista temia que aquela fosse a única chance de realizar o desejo da senhora.
Manter uma boa relação com os fãs seria essencial não só para a estabilidade da carreira solo de Dalva, como também para as conquistas que viriam no ano seguinte. Embora já acumulasse sucessos em 1950, a trajetória pós-Trio de Ouro dava apenas os primeiros passos. Destaques ainda maiores ganhariam espaço a partir de 1951.
O concurso de Rainha do Rádio
Surge, no Brasil da década de 1930, um concurso que tomaria proporções descomunais em décadas posteriores. Inaugurado pela revista Sintonia, veículo de comunicação considerado sem grande relevância, o concurso para eleger a Rainha do Rádio só começou a alcançar cantoras de grande projeção com a coroação de Linda Batista, em 1936.
Eleita por um júri de especialistas, Linda estendeu seu reinado até 1948, ano em que entregou a coroa à irmã Dircinha Batista. Foi somente em 1949 que a competição passou a ser decidida por votos populares. A alteração nas regras do concurso estava atrelada à campanha da Associação Brasileira de Rádio (ABR) para construir o Hospital do Radialista, tendo em vista que os votos deveriam ser comprados, e o dinheiro arrecadado, destinado à construção.
“No início dos anos 50, a Associação Brasileira de Rádio (ABR), no Rio, queria fazer as pessoas acreditarem que se associar a ela fosse algo maravilhoso. A ABR fazia campanha dizendo ao público que ia oferecer hospital, tratamento e apoio total aos artistas. Pessoalmente, até hoje, nunca vi nada que pudesse dar orgulho aos que pertenciam à entidade.”
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas
Mesmo com forte concorrência de Emilinha Borba, quem venceu a disputa em 1949 foi a cantora Marlene – patrocinada pela Companhia Antarctica Paulista, que decidiu associar a imagem da artista ao lançamento do guaraná Caçula. Com a ausência do concurso em 1950, Marlene manteve o título por dois anos consecutivos.
Em 1951, a Revista do Rádio – veículo que fornecia suporte publicitário à competição – anunciava novas alterações no regulamento do concurso. “Deliberou a comissão que acompanha o certame considerar candidatas todas as artistas do rádio que receberem votação”, informava a edição nº 70 da publicação. Dessa maneira, não seria necessária a inscrição das cantoras na competição, cabendo aos fãs “endereçar seus votos para as artistas que mais corresponderem às suas predileções”.
A revista, no entanto, já indicava a liderança de três cantoras na então capital do Brasil – o Rio de Janeiro. Carmélia Alves, com apoio da Rádio Mayrink Veiga, Dalva de Oliveira, com apoio da Rádio Nacional, e Araci Costa, com apoio das rádios Guanabara e Mauá, eram apontadas como fortes concorrentes à costumeira coroa do concurso e ao automóvel Goliath que seriam entregues à nova rainha.

A Revista do Rádio descreve Goliath como “o primeiro carro alemão chegado ao Brasil depois da guerra” (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
Competia aos fãs comprar os votos, vendidos a um cruzeiro cada. Além de comprá-los no endereço da Revista do Rádio, ou em outros meios oficiais, também era permitido que artistas arrecadassem dinheiro em seus shows. Pery Ribeiro, no livro Minhas duas estrelas, revela que Dalva de Oliveira “costumava arrecadar sacos e mais sacos com trocados, níqueis, cheques, entregues no dia seguinte por ela, religiosamente, para a ABR”.
A vitória de Dalva
3961 votos garantiram a liderança de Dalva de Oliveira na primeira apuração do concurso de Rainha do Rádio de 1951. Cantando ao mesmo tempo em São Paulo e no Rio de Janeiro, a Rainha da Voz empenhava-se para receber o título que consagraria a jornada de sucesso iniciada no ano anterior. Empenhar-se era o melhor caminho: a vitória não seria conquistada com tranquilidade.
Logo na segunda apuração, Marilena Alves, da Rádio Globo, ultrapassou Dalva de Oliveira em cerca de 6736 votos. Enquanto o primeiro lugar totalizava 20.586 votos, Dalva registrava uma quantia de 13.850. “Vencendo os primeiros cômputos dos votos, Dalva nem por isso mostrou toda sua força”, alertava a Revista do Rádio. Faltavam onze dias para a última apuração do concurso.
Certo alívio chegaria, porém, com a terceira apuração. Quatro dias separavam a nova contagem da apuração final do concurso. Dalva de Oliveira alcançava novamente o primeiro lugar, com um total de 65.972 votos. Mas algumas tensões ainda pairavam no ar. A Revista do Rádio clamava aos fãs para que a espera pelo resultado não se tornasse um “clima de indiferença e tranquilidade”, pois ainda era necessário angariar “o máximo possível” de votos.
Era dia 27 de janeiro quando o resultado final foi apurado. A disputa travava-se novamente entre Marilena e Dalva. Ambas estavam no prédio da Associação Brasileira de Rádio para acompanhar a apuração. Dalva de Oliveira encontrava-se, contudo, em uma sala situada próxima à mesa de contagem – e não à própria mesa, como a concorrente Marilena. Em breve, a comissão de radialistas nomeada pela ABR – e responsável por acompanhar o desenvolvimento do concurso – anunciaria a grande vencedora de 1951.

Dalva de Oliveira, a Rainha do Rádio de 1951, é capa da edição nº 108 da Revista do Rádio (Foto: Reprodução/Valdo Resende)
“Já próximo do final da apuração, quando outra vez seu nome aparecia no primeiríssimo lugar, Dalva de Oliveira abriu caminho entre a multidão, acompanhada de seus dois filhos, para assistir aos derradeiros instantes do certame”, reportou a edição nº 74 da Revista do Rádio. Não tardou para que o diretor da revista, Anselmo Domingos, anunciasse o aguardado resultado.

Enquanto Dalva de Oliveira recebe um beijo de Marlene, as princesas do rádio Carmélia Alves e Marilena Alves celebram a coroação da Rainha (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)

Marilena Alves, segunda colocada do concurso, também beijou a Rainha da Voz (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
A coroação viria no dia 30 de janeiro, reunindo cerca de 5000 pessoas no Teatro João Caetano. Com auxílio da força policial, Dalva chegou à cerimônia ao lado do Rei Momo Nelson Nobre. Rodeada de artistas e fãs, a cantora foi constantemente fotografada no evento, dividindo retratos com princesas do rádio – algumas das artistas que ficaram abaixo de Dalva em pontuação, as quais também eram premiadas – e com a cantora Marlene, que passava a coroa adiante depois de reinar por dois anos sem concorrentes.
Com 311.107 votos, contra os 232.553 de Marilena Alves, Dalva de Oliveira foi eleita Rainha do Rádio de 1951. A festa entre os fãs estava instaurada, e os abraços vieram, primeiramente, da própria Marilena, para quem “o objetivo do certame fora alcançado – o de mais uma grande parcela para a construção do hospital do radialista”.

Marlene, eleita Rainha do Rádio em 1949, coroa Dalva em 1951 (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
“Duas horas depois, Dalva podia sair do prédio da ABR; mas, lá na rua, ainda os seus fãs a esperavam. E nova manifestação teve lugar, levando-se a nova rainha até a Rádio Nacional, em meio a uma passeata improvisada e cordialíssima.”
Revista do Rádio, edição nº 74
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Após a vitória de Dalva, em 1951, o concurso de Rainha do Rádio ainda durou 16 anos (Foto: Eduardo H. Rota Hilário)
Em relação ao significado da premiação para a trajetória de Dalva de Oliveira, Rodrigo Faour e Bernardo Martins concordam que ser eleita Rainha do Rádio foi uma espécie de golpe em Herivelto Martins. Após a série de sucessos lançados em 1950, ano de estreia da carreira solo da artista, Dalva alcançava patamares cada vez mais altos e populares.
Europa
Na Rádio Nacional, Dalva brilhava sem o Trio de Ouro. As portas da gravadora Odeon estavam abertas, e os sucessos da Rainha da Voz acumulavam-se nos primeiros anos da década de 1950. O título de Rainha do Rádio também estava garantido, e Dalva assumia, finalmente, a posição de grande fenômeno brasileiro.
Mas o Brasil logo se tornaria pequeno para a cantora. No início de 1952, Dalva de Oliveira só teve tempo de coroar a nova Rainha do Rádio, Mary Gonçalves, em solo nacional. Às 18h30min do dia 21 de fevereiro, Dalva partia rumo a Portugal, no mesmo avião onde se encontrava Linda Batista, para cumprir uma série de shows contratados na Europa. O roteiro inicial previa uma excursão por quatro cidades.
“Em Lisboa, onde estrearei a 23 de fevereiro, ganharei 7 mil cruzeiros diários. Em Madrid tenho um contrato de 5 mil cruzeiros por dia, com todas as despesas pagas, e em Paris irei ganhando um milhão e quinhentos mil francos, por uma temporada de um mês. Só em Barcelona é que ainda não sei quanto vou ganhar”, revelou Dalva de Oliveira à Revista do Rádio. Os planos, no entanto, eram menores do que os desdobramentos que estavam por vir.
“De repente, Dalva resolveu-se. Arrumou as malas, assinou os contratos, beijou Pery e Ubiratan e embarcou para Lisboa no dia seguinte à entrega da coroa a Mary Gonçalves, sua sucessora no trono de Rainha do Rádio. Quando lhe perguntaram sobre a data da volta, Dalva de Oliveira respondeu com um "dentro de dois meses”. Jamais lhe passara pela cabeça a ideia de permanecer quase um ano na Europa. Mas, isto aconteceria. E aconteceu.”
Revista do Rádio, edição nº 153
Ao conquistar Lisboa, Dalva viu-se obrigada a estender o contrato por 8 dias – passando um total de 23 dias no Teatro Politeama. Cantando sucessos como Errei, Sim e Que Será, a artista brasileira ganhava, diariamente, flores e outros presentes do público lusitano. Não demorou para que a Rainha do Rádio de 1951 também conquistasse a amizade da Rainha do Rádio Português, Júlia Barroso.
O tempo passou, e Dalva precisou deslocar-se até Madrid. Entre os espanhóis, a predileção estava em um dos lançamentos daquele ano: a música Estrela do Mar (Marino Pinto e Paulo Soledade). Mas a estadia da cantora na Espanha não seguiu os mesmos passos da permanência em Portugal – embora tenha se estendido por Barcelona e outras regiões. Apesar da aceitação do público local, Dalva ainda tinha compromissos em Paris.
Da França à Itália, a Rainha da Voz acabou retornando a Lisboa. “Reclamavam, ali, sua presença, para de novo aplaudi-la calorosamente”, reportou a edição nº 153 da Revista do Rádio. A verdade é que Dalva também assinara um contrato para participar do filme Rosa de Alfama, ao lado do cantor Alberto Ribeiro. De acordo com a Internet Movie Database (IMDb), Dalva não entrou para o elenco definitivo do longa-metragem gravado em Portugal.
Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba)
A viagem prosseguia. Dalva partiu para Londres, com o intuito de gravar discos com a orquestra do maestro Roberto Inglez – artista escocês de grande prestígio na época. “Esse maestro e músico chamava a atenção pelo jeito diferente de tocar – procurava mais as notas graves e fazia solos com a mão esquerda”, escreve Pery Ribeiro no livro Minhas duas estrelas.
Trabalhando também no hotel Savoy, Dalva conquistava os aplausos do público inglês. Em uma dessas ocasiões, enquanto performava números como Lamento Negro – da época do Trio de Ouro – e Rio de Janeiro, a Rainha da Voz foi prestigiada pela futura rainha do Reino Unido, Elizabeth II. Algumas fontes indicam, contudo, que esse episódio só aconteceria em 1953.
Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba)
Dalva atuaria ainda na British Broadcasting Corporation – a BBC de Londres – antes de retornar ao Brasil. A viagem, agora, seria feita de navio, e a embarcação alcançaria o cais da Praça Mauá em um sábado, por volta das 7h da manhã. Além de ser recebida pelos filhos, Ubiratan e Pery, Dalva foi abordada por diversos locutores. Na Rádio Nacional, o retorno da estrela foi celebrado com uma festa promovida pelo programa de Manoel Barcelos no Teatro João Caetano.

“Atuou na BBC, em quatro transmissões para o Brasil. Uma para a Inglaterra, sendo este o famoso programa “In Town Tonight” (“Na Cidade, esta Noite”)”, registra a edição nº 164 da Revista do Rádio (Foto: Dalva de Oliveira FC)

“Ao voltar da Inglaterra, apoteoticamente, foram tantos os abraços e assédio dos fãs, que o vestido de Dalva rasgou. Eis aí, Manoel Barcelos (esquerda) e Ataulpho Alves (direita) mostram o "estrago" feito pelos fãs, em 1952”, publicou o perfil Dalva de Oliveira FC no Instagram, em 2021 (Foto: Dalva de Oliveira FC)

Depois de passar aproximadamente seis meses na Europa, Dalva de Oliveira reencontra a mãe, Dona Alice (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)

Dalva trouxe presentes para os filhos, Ubiratan e Pery (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)

Ao participar da festa promovida pelo programa de Manoel Barcelos no Teatro João Caetano, a Rainha da Voz recebeu uma estrela toda ornamentada (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
O fenômeno Kalu e outros destaques de 1952
De todas as gravações feitas com Roberto Inglez em Londres, havia um disco de sucesso incomparável. Com apenas uma semana de lançamento, o baião Kalu (Humberto Teixeira) atingiu a marca de 63 mil exemplares vendidos no Rio de Janeiro, batendo recordes comerciais da época. “Sucesso maior, em tão pouco tempo, ainda não se teve conta, em todo o Brasil”, destacava a Revista do Rádio.
João Elísio Fonseca, no livro A Estrela Dalva, conta que Kalu foi “lançada na Inglaterra com transmissão telefônica para o programa de César Ladeira” – recurso até então inédito em lançamentos de discos. Seria apenas uma questão de tempo para que a popularidade da música atingisse patamares ainda maiores.

Um anúncio de Kalu e Fim de Comédia ocupou uma página inteira na edição nº 155 da Revista do Rádio (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
Foi em fevereiro de 1953 que a Revista do Rádio anunciou o grande triunfo do baião de Teixeira. “Kalu vendeu 400.000 discos!”, exclamava uma manchete do veículo de comunicação. Em dois meses, Dalva acumularia uma “pequena fortuna” somente com aquele lançamento. A quantia arrecadada passaria dos 200.000 cruzeiros.

Dalva de Oliveira, Roberto Inglez e Humberto Teixeira são os principais nomes por trás do baião Kalu (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
Embora afirme que Kalu tenha vendido 300.000 cópias, Pery Ribeiro também registra, em seu livro, o sucesso comercial do 78 rpm. Segundo o filho de Dalva, a Odeon precisou rodar máquinas em turnos de 24 horas para conseguir abastecer o mercado com cópias do disco. “Se levarmos em conta que, nessa época, a população do Brasil era infinitamente menor, vamos poder dizer que minha mãe vendeu, proporcionalmente, mais discos que a Xuxa, que em 1989 atingiu a marca de 3 milhões de cópias”, escreve o cantor.
Mesmo diante de outros sucessos nacionais da época, como Ninguém Me Ama, de Nora Ney, e Índia, de Cascatinha e Inhana, Kalu permanecia entre os “campeões da popularidade” da Revista do Rádio. Com tamanha repercussão, é compreensível que o lado B do disco, contendo o samba-canção Fim de Comédia (Ataulfo Alves), também tenha se consolidado na música brasileira.
São igualmente da safra de 1952 os 78 rpm com o clássico Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro) e com a bem-sucedida marcha Estrela do Mar. Carinhoso é outra gravação marcada pela orquestra de Roberto Inglez, trazendo no lado B o samba-canção Brasil Saudoso, de Tito Climent – segundo marido de Dalva, que já a acompanhara na turnê pela Europa. Estrela do Mar, por sua vez, foi a música responsável por colocar a Rainha da Voz no filme Tudo Azul, que também reunia nomes como Marlene, Linda Batista e Carmélia Alves.

Esses eram Os Campeões da Popularidade na edição nº 165 da Revista do Rádio (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
Dalva de Oliveira canta Estrela do Mar no filme Tudo Azul, de 1952, dirigido por Moacyr Fenelon (Vídeo: YouTube/Gustavo Lopes)
Como nem tudo são flores, os lançamentos de Dalva também eram criticados. Jair Amorim não poupou comentários sobre o “segundo disco britânico” da cantora. Ele então assinava a página Discos na Revista, da Revista do Rádio. “Mais uma vez, o rapaz do controle lá em Londres não soube distribuir, convenientemente, o volume de som. E o resultado é que a grande intérprete que é a Dalva foi a única prejudicada: sua voz está em nível desigual, a orquestra continua borocochô no fundo; enfim, uma pequena tragédia musical transplantada para a cera”, escreveu o autor da nota, provavelmente, referindo-se ao 78 rpm com Brasil Saudoso.
Ao abordar o samba-canção de Tito, João Elísio também chegou a tecer uma pequena crítica sobre a música. Para ele, tratava-se de um “samba meio fraco gravado em Londres apenas em função de sua volta” – isto é, do retorno de Dalva ao Brasil. De qualquer maneira, apontamentos negativos sobre o trabalho de Dalva seriam uma questão ínfima perto do que a artista estava prestes a enfrentar.
Isso porque, em setembro de 1952, Dalva de Oliveira despedia-se de um grande companheiro musical – aquele que, na época do Trio de Ouro, já valorizava a potência da cantora enquanto figura solo. A perda de Francisco Alves ficou explicitamente registrada na discografia da Rainha da Voz.

Trazendo a marcha-rancho Meu Rouxinol no lado A, este 78 rpm calou-se no lado B, em explícita homenagem a Francisco Alves (Foto: Discogs)
“O silêncio desta face não gravada é o nosso preito de veneração àquele que foi o “Rei da Voz”. A Odeon, continuando a campanha filantrópica a que Francisco Alves dedicou os últimos dias de vida, doará às duas instituições de caridade que mereceram a sua proteção os direitos artísticos e autorais que seriam devidos ao saudoso cantor se nela houvesse uma sua gravação”, lamentava o lado B do 78 rpm. O disco, também de 1952, foi preenchido somente no lado A, com uma nítida homenagem ao Rei da Voz: Meu Rouxinol (Pereira Matos e Mário Rossi).
Adeus, Nacional!
Com quase três anos de sucesso crescente, Dalva de Oliveira pretendia reajustar seu salário na Rádio Nacional – onde cantava desde os tempos do Trio de Ouro. Mas o diálogo entre a cantora e a direção do local não conseguia chegar a um consenso. Surge, então, uma proposta da Rádio Tupi: Dalva receberia cerca de 20.000 cruzeiros por mês, “independente de sua participação no teatro e nos discos”. Para alcançar o acordo, Dalva acompanhou as negociações junto de seu novo marido, Tito Climent. Além de cantar na Tupi, a estrela teria que participar de programas de televisão.
Às 21h30min do dia 3 de novembro, a Rainha da Voz finalmente estrearia na emissora. Com direito a gritos descontrolados dos fãs, uma homenagem póstuma a Francisco Alves e, antes da estreia, um presente de colegas da Nacional, Dalva oficializaria, ali, um novo capítulo de sua carreira.
“Em sua apresentação, Dalva foi acompanhada pelo conjunto vocal As Três Marias. Antes, porém, recebeu a visita de Marlene, que foi levar à grande amiga o cumprimento dos colegas da Nacional, através de uma corbelha de flores.”
João Elísio Fonseca, no livro A Estrela Dalva
O segundo marido
A mesma revista que anunciava a troca da Rádio Nacional pela Tupi ficou responsável por revelar que Dalva de Oliveira estava casada novamente. A verdade é que Dalva tivera um casamento religioso com Tito Climent durante a passagem pela Europa, mas “todos os julgavam ainda noivos”. A novidade, publicada pela Revista do Rádio no dia 28 de outubro, renderia quatro páginas sobre o assunto.
Em seu livro, Pery Ribeiro lembra que Dalva conheceu o segundo marido, argentino, “quando ele veio ao Brasil se apresentar ao lado de Gôgo Andrews, com quem formava a dupla de comediantes Tito e Gôgo”. Mas Tito não se resumia à arte do riso; era também músico, dançarino, coreógrafo e diretor de programas de TV.
À Revista do Rádio, em 1951, Dalva já revelava detalhes do novo relacionamento. Além de contar como conhecera o marido, a artista parecia estar confiante no novo amor. Assim que conseguisse “o desquite” de Herivelto Martins, realizaria um novo casamento civil – agora, fora do Brasil. A princípio, a união seria oficializada no Uruguai.
“Tudo começou no ano passado. Eu cumpria um contrato no Teatro Recreio e ainda não era "Rainha". Certa noite, fui assistir ao "show" do "Night And Day" quando, emocionada, tive a oportunidade de conhecer a notável dupla de artistas Tito Climent e Gogô Andrew, dois argentinos do barulho, dois elementos infernalíssimos. Claro que, "de saída", meu coração pulsou mais forte por Tito.”
Revista do Rádio, edição nº 113
Dalva e Tito casaram-se em Montmartre, Paris, no início de agosto de 1952. Somente no final de outubro foi revelado que a artista não trabalhou por lá: “fui à Cidade Luz simplesmente como turista”. Segundo a cantora, casar-se na França foi mero fruto do acaso. “Aconteceu apenas que Tito e eu resolvemos nos casar enquanto estávamos na França. Assim como foi lá poderia ter sido em qualquer outro lugar”, explicou à Revista do Rádio.

Realizada a união religiosa, Dalva de Oliveira e Tito Climent já planejavam o casamento civil (Foto: Antônio Rocha/Hemeroteca Digital Brasileira)
Mais uma vez, a Rainha da Voz encontrava, além de um marido, um importante companheiro artístico. “Tito foi um baita produtor para ela”, recorda Ian Felipe, do Dalva de Oliveira FC. Nos seis meses de turnê europeia, foi Tito quem cuidou dos contratos da cantora. Pery Ribeiro afirma que o humorista abriu mão de uma carreira consagrada na Argentina para gerenciar a trajetória de Dalva no Brasil.
“Tito pretendia cuidar da imagem de Dalva. Queria que as revistas tivessem fotos dela, nos palcos ou em casa, sempre bem produzida. Queria dar dignidade a cada gesto de minha mãe.”
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas
O casamento, entretanto, não seria perfeito. Se Herivelto colocou Dalva sob intensa disciplina para criar uma imagem de estrela nos palcos, Tito queria trazer posturas quase performáticas para a vida pessoal da artista. É o que argumenta Pery Ribeiro em um capítulo de suas memórias.
“Na maioria das vezes, exigia que ela fosse uma lady, se comportasse como rainha e atuasse – esta é a palavra – o tempo inteiro. Até mesmo em casa, com a família e com os filhos. Ele queria trazer para nossa casa o clima de vida formal em que fora criado: horários rígidos, mesa muito bem-posta, roupas mais formais, mesmo em casa. Nada de penhoares ou pijamas circulando fora dos quartos.”
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas
Com sua espontaneidade, Dalva não conseguia atender aos desejos de Tito. “Minha mãe era uma pessoa vibrante, alegre, descontraída, moleca até. Adorava uma brincadeira”, escreve Pery. Manter tantas formalidades “fugia completamente de sua maneira de ser e de sua formação simplória de vida”.
Mesmo assim, Dalva e Tito resolveram adotar uma menina. Dalva Lucía entrou para a família com um nome que homenageava, ao mesmo tempo, a própria mãe, Dalva, e Lucía, genitora de Tito. Apelidada de Gigi, a criança conviveu com a cantora até 1965 – ano em que foi morar com o pai e a avó paterna na Argentina. Na perspectiva de Pery, a adoção de Gigi não traria “a paz” que o casal esperava. Conflitos entre Dalva e Tito existiriam por alguns anos.

Dalva de Oliveira e seu jeito descontraído, em foto publicada na edição nº 226 da Revista do Rádio (Foto: E. Mello/Hemeroteca Digital Brasileira)

“Não haverá o 2º desquite de Dalva de Oliveira!”, anunciava a manchete da Revista do Rádio (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
Quase dois anos antes de adotarem Gigi, Dalva de Oliveira e Tito Climent enfrentavam outros desafios ligados ao casamento. A Revista do Rádio precisou desmentir um boato veiculado na imprensa da época de que Tito abandonara a esposa. A verdade é que o humorista estava visitando a mãe em Buenos Aires, e Dalva sofria novamente na mão de veículos que lucravam com seu nome.
De qualquer modo, Dalva e Tito permaneceram juntos. Era 25 de novembro de 1953 quando os artistas oficializaram o casamento civil no Chile – e não no Uruguai, como costumavam anunciar. Na verdade, Tito estava na Argentina, gravando alguns filmes, e não poderia acompanhar a esposa, que fazia uma temporada artística no país vizinho. A união, nesse caso, foi promovida por procuração.

A Revista do Rádio chegou a publicar a certidão de casamento de Dalva e Tito, entregue ao veículo pela própria cantora (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
A partir de 1953, Dalva encontraria-se dividida entre Brasil e países como Peru, Chile e Argentina. Na terra de seu marido, chegou a comprar, inclusive, uma casa, pois passaria mais tempo lá do que no próprio país. Para o Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro, Dalva lembra que viveu na Argentina por cerca de dez anos – de 1953 e 1963, aproximadamente.
Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba)
Tangos e Tom
Na década de 1950, a discografia de Dalva de Oliveira recebia grande apoio da gravadora Odeon. A intenção da empresa era fazer com que a cantora vendesse cada vez mais discos. Depois de levar a Rainha da Voz até Roberto Inglez, em Londres, um novo investimento internacional parecia interessante. “Assim, criou, junto com a Odeon Argentina, a grande parceria que iria estourar novamente o mercado. Os tangos”, recorda Pery Ribeiro em Minhas duas estrelas.
Dalva logo seria apresentada ao famoso maestro Francisco Canaro – uruguaio de nascença, mas atuante principalmente na Argentina. João Elísio Fonseca, no livro A Estrela Dalva, resgata a fama de exigente que o respeitado músico estrangeiro carregava. O autor lembra que Canaro “costumava gravar apenas com seus crooners; excepcionalmente gravava com outros cantores mas nunca com cantoras”. Essa postura mudaria completamente na presença de Dalva.

Dalva de Oliveira e Francisco Canaro nos estúdios argentinos da gravadora Odeon (Foto: Dalva de Oliveira FC)
Em 1955, chegaria ao mercado o 78 rpm com o tango Fumando Espero (Félix Garzo e Juan Viladomat, em versão de Eugênio Paes) – provavelmente, já na conhecida gravação com a orquestra de Canaro. Bem repercutido, o disco não alcançaria, contudo, o estrondoso sucesso de Lencinho Querido (Juan de Dios Filiberto e Gabino Coria Peñaloza, em versão de Maugéri Neto), lançado no ano seguinte pela Odeon.
Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba)
Lencinho Querido permaneceria nas páginas da Revista do Rádio até o final de 1957. No mesmo ano, Dalva e o maestro uruguaio lançariam um long-play – isto é, um LP – reunindo oito gravações da dupla. Os Tangos Mais Famosos na Voz de Dalva de Oliveira seria o terceiro LP na carreira de Dalva, sucedendo as coletâneas A Voz Sentimental do Brasil (1953) e Dalva de Oliveira Com Roberto Inglez e Sua Orquestra (1955).
Foi também em 1957 que Canaro, com “palavras não encomendadas”, elogiou a companheira em entrevista à Revista do Rádio. “Tive a honra de gravar com Dalva de Oliveira, uma grande cantora, que nada fica a dever às melhores intérpretes. Incomparável a sua voz e magnífica a sua maneira de sentir e dizer com muita personalidade as belas melodias”, confessou o músico.
Para Ian Felipe, Francisco Canaro e Roberto Inglez fazem parte de um período admirável na carreira de Dalva. O fã destaca que, na década de 1950, a Rainha da Voz valorizava a qualidade de seu trabalho.
Fato curioso é que, nesse mesmo período, Dalva de Oliveira trabalharia com um ainda iniciante Antonio Carlos Jobim. Em 1955, Tom Jobim assinava os arranjos e a direção de orquestra do 78 rpm com Eterna Saudade (Genival Melo e Luis Dantas) e Não Pode Ser (Marino Pinto e Mário Rossi). No ano seguinte, além de gravar Teu Castigo (Tom Jobim e Newton Mendonça) – que vinha acompanhada da clássica Neste Mesmo Lugar (Klécius Caldas e Armando Cavalcanti) –, Dalva recebia os “belos arranjos” e a direção de orquestra de Tom no 78 rpm contendo Prece (Alberto Ribeiro) e Saia do Caminho (Custódio Mesquita e Evaldo Ruy).
Cinco divas e uma apresentação
No final de 1957, o Brasil acompanharia um encontro emocionante. O locutor Carlos Frias completava 25 anos de carreira no rádio, e uma festa de Bodas de Prata era promovida no Ginásio Gilberto Cardoso – o Maracanãzinho. Durante o evento, transmitido no rádio e na televisão pela Tupi, “milhares de espectadores” assistiriam, entusiasmados, a uma apresentação ao menos histórica.
Naquele momento, Angela Maria, Emilinha Borba, Dircinha Batista, Marlene e Dalva de Oliveira cantariam juntas pela primeira vez. Cada estrela chegou ao Maracanãzinho à sua maneira. Dalva surgiu dentro de um pequeno veículo nacional, enquanto Angela Maria sentava-se no para-brisa de um jipe. Se Dircinha era escoltada pela Polícia Militar em outro automóvel, Emilinha Borba acomodava-se na “barquinha” de uma moto. Já Marlene, vestindo uma capa de veludo preto, adentrava o ginásio em cima de um cavalo.

Na edição nº 434 da Revista do Rádio, quatro páginas foram destinadas à cobertura da festa de Carlos Frias – mas a manchete destacava mesmo a apresentação das “cinco grandes” (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
“Como fecho de ouro do espetáculo, num quadro que a todos comoveu, Emilinha, Angela, Dalva, Marlene e Dircinha entoaram juntas o "Deus Salve a América", encerrando uma festa que marcou época no rádio brasileiro”, noticiou a Revista do Rádio. Doris Monteiro, Julie Joy e Lana Bittencourt também marcaram presença na celebração.

Angela Maria, Emilinha Borba, Dircinha Batista, Marlene e Dalva de Oliveira dão as mãos na grande celebração (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)





As rainhas do rádio chegaram ao Maracanãzinho de formas distintas (Fotos: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)

Julie Joy e Doris Monteiro foram fotografadas com Carlos Frias (Foto: Revista do Rádio/Hemeroteca Digital Brasileira)
Declínio e últimos êxitos
Nos anos 1960, a música popular brasileira experimentava uma verdadeira efervescência cultural. Bossa Nova, grandes festivais de música, rock nacional – popularmente conhecido como Jovem Guarda –, novos bregas e, no final da década, o Tropicalismo. Em um primeiro momento, tudo indicava o declínio dos grandes cantores do rádio. Uma Era de Ouro inteira parecia estar ultrapassada.
“A Bossa Nova se tornou um símbolo de decadência dos artistas que vieram antes disso. O estilo musical no qual meu pai [Pery Ribeiro] se aprofundou era, na verdade, o estilo musical que estava matando a música da minha avó.”
Bernardo Martins, diretor do documentário #100Dalva
Perdendo forças para a televisão, o rádio também se transformava, ao ponto de abrir mão dos programas de auditório. Nesse período, a Rainha da Voz também enfrentava dilemas pessoais. “Dalva e Tito estavam com o casamento abalado desde o início dos anos sessenta”, lembra João Elísio Fonseca, no livro A Estrela Dalva. Retornando à Argentina para dirigir uma emissora de TV, Tito “entregou os pontos” daquela união – argumenta Pery Ribeiro em Minhas duas estrelas.
Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba)
O humorista partiu acompanhado da filha Gigi – que escolheu ficar com o pai diante da ruptura do casamento. Aquilo seria um grande tormento para a cantora. “Não gosto de recordar como minha mãe ficou transtornada – tentou de todas as formas dissuadi-lo. Propôs até uma reconciliação, mesmo sabendo que a situação entre os dois havia se tornado impossível”, escreve Pery.
Não bastando a crise do segundo casamento, Dalva ainda sofreria um grave acidente de trânsito em agosto de 1965 – mesmo ano em que Gigi partiu para a Argentina. Depois de meses internada, a Rainha da Voz carregaria na face uma cicatriz indisfarçável. Não seria fácil lidar com as mudanças musicais da época, enfrentar a instabilidade na vida amorosa e ver portas se fechando na TV por conta de uma cicatriz aparente.
O sucesso da cantora já não era o mesmo. Ainda assim, alguns feitos conseguiram se destacar no início dos anos 1960. Em 1961, por exemplo, ao comemorar Bodas de Prata na gravadora Odeon, a artista regravaria clássicos da carreira em um LP intitulado Dalva de Oliveira – também divulgado na época como Jubileu de Prata. Mais tarde, o disco apareceria na lista de Melhores Long-Playings Nacionais de 1961, do jornal O Globo.

O jornal O Globo divulgou, no dia 22 de dezembro de 1961, a lista de melhores LPs nacionais daquele ano (Foto: Acervo O Globo)
No ano seguinte, a Revista do Rádio reuniria Pery Ribeiro, Elza Soares, Dalva de Oliveira e Orlando Dias para falar de outras conquistas. “No auge da popularidade, eles ganham a média de 100 mil cruzeiros por dia, quando contratados para atuarem em shows pelo interior”, informava o veículo de comunicação. A Rainha da Voz permaneceria nas páginas da imprensa, embora em menor frequência.
Mas o melhor ainda estava por vir: três músicas de Dalva trariam à cantora o sucesso fervoroso de antigamente. A primeira, Rancho da Praça Onze (João Roberto Kelly e Chico Anysio), foi lançada em 1964 e incluída no LP homônimo de 1965 – ao lado de faixas como Hino Ao Amor (Edith Piaf e Marguerite Monnot, em versão de Odair Marsano), Sonho de Pobre (Tito Climent) e A Bahia Te Espera (Herivelto Martins e Chianca de Garcia).
Rancho da Praça Onze foi tema do programa Musikelly, na TV Rio, colocando o nome de Dalva em evidência novamente. “Mais uma vez sua voz tomou conta da cidade e do Brasil”, recorda João Elísio Fonseca. Felizmente, o retorno aos holofotes seria estável; já em 1966, a Rainha da Voz lançaria o segundo grande êxito desse período: a marcha-rancho Máscara Negra (Zé Keti e Pereira Matos), inserida no LP A Cantora do Brasil, de 1967.
Em 1966, Dalva ainda lançou, exclusivamente na Argentina, o álbum La Romantica, que reunia regravações em Espanhol de parte de seu repertório

Em setembro de 1968, Dalva era anunciada como uma das atrações do programa Direito de Nascer e Morrer do Tropicalismo (Foto: Jornal do Brasil/Hemeroteca Digital Brasileira)
Àquela altura, investir no carnaval parecia ser o melhor caminho para o sucesso de Dalva. De forma muito precisa, a artista surgiria, em 1970, com um dos maiores êxitos de toda a sua carreira: “Bandeira branca, amor/Não posso mais/Pela saudade que me invade/Eu peço paz”. Até hoje, Bandeira Branca (Max Nunes e Laércio Alves) é uma das músicas mais reproduzidas da Rainha da Voz – levando em consideração seu desempenho nas plataformas de streaming. Em questão de popularidade, era aquele o último ato artístico explosivo da Estrela Dalva.
