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O álcool

“Bebam, bebam comigo/Hoje eu convido quem queira beber”. Os versos que abrem La Copa Del Olvido (E. Delfino e Vaccarezza, em versão de Tito Climent) servem, também, para resgatar uma questão muito delicada na vida de Dalva de Oliveira. Ao atingir o estrelato, a cantora encontrava-se rodeada de aplausos, gritos, assédios e luzes excessivas; os momentos de privacidade, por outro lado, mostravam-se cada vez mais distantes. “Eu a via chegar em casa exausta, completamente enfraquecida pela perda de tanta energia”, recorda Pery Ribeiro. Naquele momento, o conhaque parecia ser a forma perfeita de encontrar algum alívio. 

“Minha mãe contava que, ainda menina, aprendeu a tomar cachaça com ele [Seu Mário, pai da cantora]. Para o resto de sua vida, ela não iria esquecer esses ensinamentos. Lamentavelmente.”
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas

Dalva dava os primeiros passos rumo ao alcoolismo, um dilema que a acompanharia pelo resto da vida. Para piorar a situação, naquela época, os alcoólatras enfrentavam estigmas que dificultavam qualquer tratamento. “O alcoolismo não era tratado da mesma maneira científica que é hoje. Hoje, a gente sabe que é uma doença e que a pessoa se perde naquilo”, avalia Bernardo Martins, neto da estrela.

Quando falava, na entrevista, da simplicidade da avó, Bernardo se lembrou de um episódio envolvendo Dalva e o consumo de álcool. Apesar de estar associada aos vícios da cantora, a história de Dalva no canteiro de obras também destaca o lado simples e acessível da Rainha da Voz.

“Por mais feliz e satisfeita que ela se demonstrasse, era uma mulher ferida. Uma mulher que teve seus problemas amorosos o suficiente para deixar [outros] problemas muito fortes. Minha avó se afogou”, confessa o diretor do documentário #100Dalva. Rodrigo Faour também menciona as desilusões da cantora ao abordar a questão do alcoolismo. “Ela não segurou a onda. A voz dela era forte, as letras que ela cantava eram fortes, mas, internamente, ela nunca superou a separação. Ela realmente gostava do Herivelto, mesmo com todos os problemas dele”, afirma o jornalista. 

Para Ian Felipe Fontes, do Dalva de Oliveira FC, a separação com Herivelto pode não ser o único elemento por trás das bebidas. O fim do casamento com Tito também traria mágoas para a artista.

Em 1962, Dalva seria submetida a uma operação “para extirpar um tumor na área feminina”, revela Pery. Amedrontada pelo médico, a cantora passaria cerca de dois anos – 1962 e 1963 – longe das bebidas, temendo perder a vida para o álcool. Tito Climent chegou a colocá-la em tratamento médico, na tentativa de amenizar os danos provocados pelo vício, mas o período de sobriedade não duraria muito. “Nossa mãe voltou a se descontrolar, a afagar as carências num copo, em vez de buscar dentro do ser humano que era o seu próprio alimento”, admite o filho.  

A estrela Dalva… no céu desponta!

A saúde de Dalva de Oliveira mostrava-se cada vez mais frágil. Sozinha na casa de Jacarepaguá – o que raramente acontecia no movimentado refúgio da cantora –, Dalva sentiu-se mal em uma manhã de junho de 1972. “Telefonou para algumas estações de rádio, que, no ar, solicitaram a presença do Dr. Arnaldo de Moraes Filho, seu último médico”, narra João Elísio Fonseca. Conduzida à Casa de Saúde Arnaldo de Moraes, em Copacabana, Dalva vivenciava o início do fim.

Internada por aproximadamente 40 dias, a cantora chegou a receber alta “sem que estivesse definitivamente curada”, registrou uma reportagem do jornal O Globo. O diagnóstico identificava problemas no esôfago, e a Rainha da Voz permaneceria em casa por apenas dez dias. No dia 20 de julho, uma forte hemorragia interna a levaria de volta à casa de saúde. Contra sua vontade, precisou ficar no quarto 304 – já rejeitado anteriormente, mas o único disponível para a segunda internação. Algo parecia incomodar a artista naquele quarto lilás. 

“Três dias antes de morrer, Dalva pressentiu o fim e, pela primeira vez, em sua longa agonia de quase três meses, falou na morte”, informava uma edição especial da revista Cartaz. Era agosto de 1972 quando a cantora manifestou seus últimos desejos à amiga Dora Lopes; queria ser vestida e maquiada, para que o povo a visse assim pela última vez. “Todos vão parar para me ver passando”, previu a artista, em frase também resgatada pelo veículo de comunicação.

Havia uma comoção nacional ao redor da estrela debilitada. João Elísio lembra que “mais de dez pessoas passaram a ir ao banco de sangue do hospital diariamente. Eram, em sua maioria, pessoas humildes, vindas dos subúrbios onde ela ainda reinava”. A equipe médica também trabalhava arduamente para que a artista se recuperasse. Mas o caso era grave, e as hemorragias no esôfago logo tomariam proporções incontornáveis. Às 17h15min do dia 30 de agosto, um novo brilho iluminava o céu: Dalva partia aos 55 anos de idade.

“Ontem pela manhã, Dalva de Oliveira ainda conversava. Os dois comas seguidos por que passara nos últimos dias já estavam esquecidos e ela recebeu alegre a visita do ator César Duran, grande amigo seu, com quem discutiu planos para grandes festas quando saísse e a realização de “uma baita feijoada, na beira da piscina lá de casa”. Logo depois, porém, as hemorragias retornavam, mais frequentes a cada minuto e incontroláveis por transfusão sanguínea. Pery Ribeiro e Ubiratan Martins, seus filhos, foram chamados às pressas, o tempo suficiente para assistirem a seu passamento.”
O Globo, 31 de agosto de 1972

Além da mãe, Dona Alice, das irmãs, Margarida, Nair e Lila, e dos filhos, Ubiratan e Pery, o mundo artístico também teve acesso ao hospital onde Dalva falecera. Na Casa de Saúde Arnaldo de Moraes, foi Dora Lopes quem recebeu Dalva Lucía, vinda há poucos dias da Argentina. Segundo o jornal O Globo, nomes como Leny Andrade, Carminha Mascarenhas e Aldacir Louro estiveram presentes no local.

O último adeus

O corpo de Dalva, já aguardado por uma fila de admiradores, chegaria ao saguão do Teatro João Caetano pouco depois das 20h. Foram necessárias duas horas de espera para que Mônica Vanda, a primeira fã da fila, conseguisse se despedir da cantora. “Seu rosto continuava com uma expressão calma e o vestido cor-de-rosa sumia entre as flores”, descreveu a revista Cartaz.

Segundo o veículo de comunicação, nem mesmo o frio da madrugada e a chuva de quinta-feira, 31, afastaram a multidão da artista. Foram 17 horas de vigília até que o corpo fosse retirado do teatro, às 14h40min. Colocado sobre uma viatura da Polícia Militar, o caixão era acompanhado pelos fãs. “Trinta mil pessoas acotoveladas na Praça Tiradentes começaram a chorar, algumas a acenar seus lenços, ninguém escondia emoções”, assinalou a revista.

Mais de 20 mil pessoas levaram último adeus a Dalva de Oliveira.jpeg

Milhares de admiradores ocuparam as ruas do Rio de Janeiro para dar o último adeus a Dalva de Oliveira (Foto: Acervo O Globo)  

De fato, uma manchete do jornal O Globo anunciava que “Mais de 20 mil pessoas levaram último adeus a Dalva de Oliveira”. A reportagem detalhava, inclusive, o trajeto percorrido pelo caixão. A Cartaz, por sua vez, dava ênfase a outros dados numéricos do cortejo fúnebre. “Meio milhão de pessoas espalharam-se pelas calçadas dos bairros e subúrbios por onde o corpo passava”, noticiou a revista.

“Do Teatro João Caetano o carro que conduzia o corpo de Dalva de Oliveira seguiu pela Praça Tiradentes, Rua da Carioca, Rua da Assembleia, Rua Primeiro de Março, Candelária, Av. Presidente Vargas, Viaduto dos Marinheiros, Praça da Bandeira, Avenida Radial Oeste, Maracanã, Rua 24 de Maio, Rua Dias da Cruz, Rua Amaro Cavalcanti, Avenida Clarimundo de Melo, Largo de Cascadura, Largo de Madureira, Largo de Campinho, Rua Cândido Benício, Largo do Tanque, Estrada do Catonho e Rua Oliveira Martins, até chegar ao cemitério-parque Jardim da Saudade.”
O Globo, 1º de setembro de 1972 

Na verdade, Dalva desejava que seu enterro saísse do salão da casa em Jacarepaguá, segundo revelação de Dora Lopes à revista Cartaz. “Mas o Governador cedeu o saguão do Teatro João Caetano, lugar que testemunhou tantas vezes a estrela Dalva a brilhar”, explica João Elísio Fonseca. De qualquer modo, o corpo da artista chegaria ao cemitério Jardim da Saudade às 17h50min. Cinco ônibus foram fretados para conduzir os fãs da cantora até o local. Dalva seria enterrada na sepultura 407-A.

“O policiamento no cemitério foi pouco eficiente: os cem guardas da Polícia Militar, deslocados para o local, não foram suficientes para deter a multidão, que arrebentou os cordões de isolamento, quando o corpo da cantora chegou, após percorrer as principais ruas da cidade e da zona suburbana.”
O Globo, 1º de setembro de 1972

Perder a Rainha da Voz seria doloroso até mesmo para Herivelto Martins, separado da estrela há mais de 20 anos. “Dalva era amiga e mãe dos meus meninos. Lamento mais que qualquer pessoa a sua morte”, confessou o artista ao jornal O Globo. Na mesma ocasião, Herivelto classificou Dalva como a maior cantora do Brasil. “Jamais teremos uma intérprete como ela”, garantiu o compositor.

A voz imortal

Nem mesmo a morte foi capaz de apagar o brilho da Estrela Dalva. “O sucesso dela e a voz dela eram tão diferentes, que acabaram influenciando as cantoras todas que vieram depois, de alguma maneira”, assegura Rodrigo Faour. O jornalista lembra que nomes como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa e Alcione ouviam os cantores do rádio na época em que o veículo de comunicação dominava o consumo midiático no Brasil – e Dalva destacava-se nesse meio.

Maria Bethânia recorda, no programa Ensaio de 15 de agosto de 1999, a infância marcada pelos cantores do rádio, além do fascínio despertado por Dalva de Oliveira (Vídeo: YouTube/Programa Ensaio)

“Como ela teve muitos sucessos, tanto de meio de ano quanto de carnaval, ela marcou definitivamente essa geração que veio depois”, explica Rodrigo. Do samba à Bossa Nova, passando pela Jovem Guarda, a influência de Dalva na música brasileira é frequentemente recordada pelos próprios artistas. “Mesmo uma Wanderléa, mesmo as cantoras da música chamada jovem, ninguém ficou incólume a essa geração”, pontua o jornalista.

Em entrevistas e shows, a cantora Maria Bethânia manifesta grande admiração pela Rainha da Voz. “Dalva, para mim, foi a melhor coisa de voz que aconteceu no Brasil”, revelou a intérprete ao jornalista Zuza Homem de Mello, em entrevista promovida para divulgar o álbum Oásis de Bethânia, de 2012. Mais recentemente, Alaíde Costa expôs, no programa Persona em Foco, da TV Cultura, uma verdadeira predileção por Dalva de Oliveira.

No Persona em Foco de 26 de março de 2023, Alaíde Costa chamou Dalva de Oliveira de “minha favorita” (Vídeo: YouTube/Persona)

Uma Elza Soares iniciante também deixava explícita a referência encontrada em Dalva de Oliveira. Além de protagonizar a fotografia em que abraça, completamente emocionada, a Rainha da Voz, Elza chegou a imitar Dalva no final da música Boato (João Roberto Kelly), lançada em 1960, no álbum A Bossa Negra. “Dalva tinha uma técnica enorme e atingia aquelas notas enormes. Talvez, as pessoas olhassem e falassem: quero chegar a esse nível", deduz o fã Ian Felipe.

Para Bernardo Martins, as marcas deixadas por Dalva na música brasileira podem ser observadas desde os títulos que a cantora recebeu. “Minha avó teve muitos apelidos. Ela foi chamada de Estrela Dalva, Rainha do Rádio, Rouxinol do Brasil, de muitas coisas. Mas um desses apelidos representa seu legado: o de professora das cantoras”, explica o diretor de #100Dalva.

“Quando você fala que alguém é professora das cantoras, você já está denominando o tamanho, a importância e a capacidade de alcance que essa pessoa tem, e o quanto ela influenciou as pessoas que vieram depois dela.”
Bernardo Martins, diretor do documentário #100Dalva 

Ao exemplificar sua fala, Bernardo recorre ao caso de Angela Maria, que iniciou a carreira artística imitando a Rainha da Voz. “A Angela Maria é uma das maiores cantoras do Brasil e aprendeu a cantar com Dalva de Oliveira. Se você fala que uma das maiores cantoras do Brasil aprendeu a cantar com essa daqui, vamos focar nessa daqui”, defende.

Uma espécie de pioneirismo da Rainha da Voz no cenário musical brasileiro se destaca na argumentação de Bernardo. Assim como Rodrigo Faour, o neto de Dalva de Oliveira menciona a influência da cantora sobre gerações artísticas seguintes. Nesse caso, lembrar-se de quem veio depois de Dalva – principalmente, de outras cantoras – seria, também, uma forma de resgatar essa figura pioneira.

Uma reportagem de Eduardo Henrique Rota Hilário

Bauru, 2023

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