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Vicentina

Rio Claro, 5 de maio de 1917. O casal Mário Antônio de Oliveira e Alice do Espírito Santo de Oliveira está prestes a receber um filho. Seu Mário, como era conhecido o homem, pretende cuidar de um menino. O nome da criança já está até escolhido: será o pequeno Vicente. A alegria logo invade o coração do casal, e a mulher, Dona Alice, dá à luz um bebê de olhos verdes – para a surpresa de Mário, uma menina. O nome, contudo, não mudaria muito. Chegava ao mundo a encantadora Vicentina de Paula Oliveira.  

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Da esquerda para a direita: Dalva, em pé; Margarida, sentada; Nair, em pé; Lila, na bacia; fotografia tirada depois da morte de Seu Mário (Foto: Acervo pessoal de Valdir Comegno/Revista do Arquivo)

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Alice do Espírito Santo de Oliveira e Mário Antônio de Oliveira, pais de Vicentina de Paula Oliveira, em 1912 (Foto: Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro/Revista do Arquivo)

Mário Carioca, como também era conhecido o pai de Vicentina, trabalhava como carpinteiro e marceneiro na Companhia Paulista de Trens. Já Dona Alice, portuguesa naturalizada brasileira, “fazia doces e pastéis para o bar do Brunini e empalhava cadeiras para ajudar no orçamento doméstico” –  registra o escritor João Elísio Fonseca no livro A Estrela Dalva. Naquele interior paulista, Seu Mário e Dona Alice provavelmente não imaginavam que, em cerca de vinte anos, Vicentina se tornaria uma das maiores cantoras brasileiras da Era de Ouro do rádio: a incomparável Dalva de Oliveira.

A arte, no entanto, sempre esteve presente na família Oliveira. Apesar dos trabalhos oficiais, Seu Mário aproveitava as noites rio-clarenses para atuar como músico. Não demorou para que Vicentina acompanhasse o pai em jornadas de boemia. Dona Alice chegou a ser mãe de sete filhos, restando, posteriormente, apenas quatro meninas: Vicentina, Severina (Lila), Margarida e Nair. “Todas extremamente musicais”, recorda Pery Ribeiro – ou melhor, Peri de Oliveira Martins, filho de Dalva, nascido em 1937 – no livro Minhas duas estrelas.

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Praça Dalva de Oliveira, localizada em Rio Claro, cidade natal da cantora (Foto: Jornal Cidade de Rio Claro)

“Seu Mário gostava mesmo era de, assim que saía do trabalho, passar em casa, tomar um banho, comer alguma coisinha, pegar seus instrumentos, uma clarineta e um sax, e
juntar-se aos Oito Batutas, os boêmios e se
resteiros da cidade que animavam festas, festinhas e bailes." 
João Elísio Fonseca, no livro A Estrela Dalva

Ainda menina, Vicentina foi artisticamente educada pelo pai. Começou a cantar e fazer gestos, aprendendo a utilizar postura e voz. Pronta para acompanhá-lo em suas serenatas, a filha agora desfrutava das jornadas noturnas dos Oito Batutas. “Eram recebidos com uma verdadeira quitanda: bolos, doces, queijos, doces em calda, pães, café, leite e…pinga, porque as noites no interior paulista são frias e cai um sereno gelado. E Vicentina acompanhava feliz aquele grupo noite adentro”, descreve João Elísio. 

Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba) 

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Seu Mário – primeiro homem em pé, à direita – e os outros Batutas (Foto: Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro/Revista do Arquivo) 

“Seu Mário via Vicentina crescer, o Vicente do papai, e tocava para ela tangos, valsas, tudo. Quando a menina ficou maiorzinha, ensinou-lhe algumas músicas e a acompanhava na clarineta. Ela subia num banquinho, cantava, fazia gestos e Seu Mário aprovava ou não: aí vinham novas lições de voz e postura. Isso até o dia em que ele achou que sua Vicentina, o Vicente do papai, já podia acompanhá-lo em suas serestas. Vida nova. Vicentina não via a hora do pai chegar para tomar banho, trocar de roupa e ganhar a rua.”
João Elísio Fonseca, no livro A Estrela Dalva

Dalva de Oliveira

Vicentina sabia – e gostava de – aproveitar a companhia do pai. Mas as reviravoltas da vida chegariam cedo até a menina. Antes de completar nove anos, a artista mirim despedia-se de Seu Mário. Com o falecimento do músico, Dona Alice e as filhas precisavam encontrar maneiras de sobreviver no mundo. A primeira alternativa foi colocar Vicentina em um colégio interno, onde aprendeu a tocar piano. A solução, no entanto, duraria pouco, pois a menina desenvolveria problemas de visão.

Saindo do colégio, Vicentina foi trabalhar com Dona Alice em São Paulo. O internato, agora, destinava-se às irmãs, Lila, Margarida e Nair. Responsáveis pelo sustento da família, mãe e filha trabalhavam em casas de família na capital paulista. Vicentina era, sobretudo, babá e arrumadeira – e não demorou para conseguir, junto de Dona Alice, um emprego no Hotel Metrópole, na Avenida São João. Cozinheira e arrumadeira da sala de música do hotel, Vicentina aproveitava os momentos oportunos para desfrutar do piano instalado no local.

Certo dia, a menina foi flagrada pelo maestro que ministrava aulas de dança naquele cômodo. Seria essa a conexão necessária para que Vicentina chegasse até Antônio Zovetti, diretor de uma trupe recorrente no interior paulista. Ainda criança, a artista encontraria apoio de Dona Alice para se unir à companhia artística do Sr. Zovetti; juntas, mãe e filha viajavam pelas cidades do Brasil, apresentando o talento da menina-prodígio. Mas a alegria só duraria até Belo Horizonte. Na capital mineira, o diretor da trupe descobriria uma úlcera no estômago. Com a saúde debilitada, Antônio decretava o fim da companhia artística.

Vicentina, então, procurou a Rádio Mineira. Com seu talento, além do constante apoio da mãe, logo conseguiu participações na emissora. “O salário facilitou a vida de ambas, que viviam numa casinha emprestada, no bairro das Flores. Mas não era o bastante”, escreve João Elísio Fonseca. Lila, Margarida e Nair permaneciam no colégio interno, em São Paulo. O melhor seria tentar a carreira artística no Rio de Janeiro – repleto de emissoras, teatros e gravadoras. Havia, porém, um problema: Vicentina não parecia nome de artista.

“Dona Alice queria para ela um nome forte, marcante, brilhante. Depois de muito matutar e de pensar em Vicentina de Paula e Paula de Oliveira, ocorreu-lhe Dalva; este sim era um nome de estrela. Assim nascia a estrela Dalva de Oliveira, que de Rio Claro saíra para conquistar o mundo.”
João Elísio Fonseca, no livro A Estrela Dalva

Por volta dos 17 anos, Dalva finalmente iria para a então capital do Brasil. Como de costume, Dona Alice trabalharia em casas de família; já a filha, sem contatos naquele meio artístico, seria contratada por uma fábrica de chinelos de pompom. O dinheiro novamente era curto, e restava à cantora exercer seu talento durante o expediente de trabalho. Aquela seria mais uma escolha certeira de Dalva.   

“Os dias passavam e Dalva aproveitava o horário de trabalho para atualizar seu repertório. Cantava o dia inteiro, para alegria dos colegas e desespero do gerente. Certo dia, como nos contos de fada, aconteceu o inesperado. Estava ela a cantar e a pespontar chinelos quando apareceu um senhor muito bem vestido, de terno de linho branco e chapéu panamá, que pediu ao gerente para lhe apresentar aquela mocinha magrinha, de cabelos compridos, que cantava. O gerente mandou chamar Dalva, que imaginou logo o pior: seria dispensada por sua cantoria. O elegante senhor, que era sócio da fábrica de chinelos, também cantava, na Rádio Ipanema, interpretando tangos. Era nada menos que o famoso Milonguita que, além de tudo, era sócio da emissora. Foi só marcar um teste para sua operária que, competente como sempre, foi aprovada.”
João Elísio Fonseca, no livro A Estrela Dalva

O locutor Felício Mastrângelo chegou a contestar essa versão, assumindo o lugar de Milonguita na trajetória radiofônica de Dalva. Clique aqui para ler, na íntegra, o depoimento à Revista do Rádio.  

A partir de então, a carreira de Dalva nas rádios cariocas foi se desenvolvendo cada vez mais. Em 1935, a cantora chegou à Rádio Mayrink Veiga, conquistando condições de vida mais favoráveis. “As finanças melhoravam e Dalva trouxe para o Rio suas irmãs Nair, Lila e Margarida”, lembra João Elísio. Trabalhando na mesma emissora de Aurora e Carmen Miranda, Dalva estava prestes a se tornar uma verdadeira estrela. 

Dalva de Oliveira entrevistada pelo jornalista Antônio Chrysóstomo para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em abril de 1970 (Crédito: YouTube/Sambista Nato - Tudo de Samba) 

Herivelto Martins e o Trio de Ouro

Era 1936 e Dalva trabalhava no Teatro Pátria. De repente, a cantora é abordada por um sujeito de olhos azuis. Nos palcos, o homem se transformava no palhaço Zé Catimba. Depois, assumia o lado musical na Dupla Preto e Branco. Seu nome era Herivelto Martins, e o motivo da aproximação parecia ser artístico. “Dalva começou a assistir aos ensaios da dupla, à tarde, no teatro. Herivelto passou a prestar atenção nos números de Dalva: a voz linda, a extensão vocal o impressionavam”, revela Pery Ribeiro em suas memórias.

Os encontros tornavam-se cada vez mais frequentes. Em uma tarde, Dalva ensaiava sua apresentação quando Herivelto, por pura brincadeira, surgiu com contracantos. O resultado foi tão surpreendente, que Dalva e Herivelto passaram a trabalhar juntos. Surgia, ali, o grupo musical Dalva de Oliveira e a Dupla Preto e Branco. Aos poucos, surgiria, também, uma verdadeira paixão entre Dalva e Herivelto. Amor e profissão começaram a caminhar juntos. Faltava, porém, um nome mais adequado para o trio.

“Começaram a gravar, a se apresentar em shows, em rádios: “Dupla Preto e Branco e Dalva de Oliveira, um trio de ouro!”, anunciava o comunicador César Ladeira, na então famosa Rádio Mayrink Veiga.
Ficava assim batizado: o Trio de Ouro.”

Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas

Ana Duarte, esposa e empresária de Pery Ribeiro, foi creditada no livro por organizar os escritos do marido – criando uma cronologia para os textos ou tornando as informações mais precisas e coesas.

Bernardo Martins é diretor de #100Dalva, documentário ainda inédito, que resgata a figura da Rainha da Voz. Filho de Pery Ribeiro e Ana Duarte, Bernardo é, também, neto de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins – mas não chegou a conhecer a avó. 

Em pouco tempo, Dalva e Herivelto morariam juntos. O casamento só viria alguns anos depois. Na década de 1930, dividir a casa antes de oficializar a união provocaria um verdadeiro escândalo. Por isso mesmo, Dalva chegou a mentir para a família, em cartas, fingindo estar casada com Herivelto. Na verdade, a estrela seria até mesmo mãe – com o nascimento de Pery Ribeiro, em 1937 – antes de casar-se. “Eu já era nascido, mas meus pais ainda não haviam casado. Só vieram a se casar tempos depois, em 1939”, escreve o cantor.

Casados e trabalhando juntos, Dalva e Herivelto viveram por alguns anos em “muquifos” do Rio de Janeiro –  um termo utilizado pelo próprio Pery Ribeiro. Chegaram a dividir cômodo com Nilo Chagas, o terceiro integrante do Trio de Ouro, e tiveram um segundo filho, Ubiratan de Oliveira Martins. Somente em 1941, o Trio assinaria um contrato fixo com o famoso Cassino da Urca. Desse momento em diante, seria uma questão de tempo para que os artistas conquistassem o Brasil. 

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Herivelto Martins, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas foram a primeira formação do Trio de Ouro, mantida de 1936 a 1949  (Foto: Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã)

“Herivelto impunha uma disciplina severa ao Trio, e os ensaios para introdução de uma música nova no repertório eram rigorosos. Ele era de uma dedicação impressionante ao trabalho. Nada era mais importante. Era sua fonte de vida, de dignidade. E ofereceu esta dignidade à minha mãe.”
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas

Além de cantar os sucessos do grupo, como Ave Maria No Morro (Herivelto Martins, 1942) e Praça Onze (Herivelto Martins e Grande Otelo, 1943), Dalva teve a oportunidade de gravar várias canções com Francisco Alves, um dos maiores cantores da época. Veio dele, inclusive, o apelido de Rainha da Voz – afinal, se Dalva estava cantando em perfeita harmonia com o Rei da Voz, nada mais justo do que carregar, também, um título de realeza.   

Com o sucesso do Trio de Ouro e a respectiva ascensão financeira dos artistas, Dalva e Herivelto poderiam desfrutar de uma vida dos sonhos. Mas não foi o que aconteceu. Com o passar dos anos, Herivelto buscaria a companhia de outras mulheres. As brigas do casal, famosas e existentes há algum tempo, tornaram-se mais escandalosas e violentas. Embora fosse submissa, Dalva nem sempre se calava diante do marido. 

“Não foram poucas as vezes em que, ao voltar do colégio, ficava sabendo que minha mãe estava no pronto-socorro – meu pai batera nela. Ou, então, procurava meu pai e diziam que ele estava no hospital – minha mãe arrebentara a cabeça dele com um cinzeiro de bronze.”
Pery Ribeiro e Ana Duarte, no livro Minhas duas estrelas

Uma reportagem de Eduardo Henrique Rota Hilário

Bauru, 2023

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